Biografia de Francisco Guerreiro

Filho de Francisco Guerreiro Júnior e de Esperança de Jesus Reis, ele operário, ela doméstica, neto de pequenos proprietários agrícolas, de seu nome completo, Francisco Guerreiro, nasceu em Pechão, no Sítio da Igreja, a 29 de Janeiro de 1917. Faleceu no Hospital Distrital de Faro, a 17 de Março de 2004, aos 87 anos, estando sepultado no cemitério da terra que o viu nascer.
Frequenta a escola primária quando, em 1926, um golpe militar põe fim à curta experiência democrática da lª República. Apenas dois anos mais tarde, Salazar chega ao poder e inicia um longo reinado de tirania e prepotência.
Terminada a 4ª classe, e impossibilitado de prosseguir estudos devido à falta de posses dos pais, procura nos livros e no convívio com outros rapazes respostas para a sua ânsia de saber e para as suas inquietações em relação à realidade social e política do mundo em que vive. Por conta própria, e através de leituras variadas, vai adquirindo conhecimentos de Geografia, História, Ciências e, mais tarde, de Sociologia e Política. A poesia ocupa, desde cedo, um lugar muito especial nas suas preferências: entre os autores que mais aprecia estão Antero de Quental, Guerra Junqueiro, Miguel Torga e o popular Aleixo, que conheceu pessoalmente, ainda rapaz, mas de cuja obra, só vários anos depois, se tornará leitor e admirador.
Nos livros — dirá mais tarde — aprende a ver o mundo por outro prisma. Pelas leituras que faz, mas também pela observação directa do meio social da sua freguesia, marcado pela pobreza e pelo analfabetismo, ganha consciência da natureza prepotente do regime que então governa o país e atrai sobre si a sanha das autoridades. Em 1936, apenas com 19 anos, é chamado à presença do Administrador do Concelho e ameaçado por ter, com alguns amigos, dado aulas de alfabetização a outros jovens. Dois anos depois, na sequência de uma vaga de repressão desencadeada pelo regime em todo o Algarve, é preso, com outros companheiros, e passa, durante cerca de um ano, sucessivamente, pelas cadeias do Governo Civil de Lisboa, de Caxias e de Peniche e é julgado no Tribunal Militar Especial e condenado a pena de prisão e perda de direitos políticos. Durante esse tempo, é sujeito a maus tratos, a incomunicabilidade e a 28 horas seguidas de tortura da estátua (de pé, sem comer nem dormir).
Regressado dos cárceres fascistas, casa com Domicília da Conceição, de quem teve dois filhos, Domitila da Conceição Guerreiro e Vladimiro Miguel Guerreiro, e retoma a labuta diária na oficina de ferreiro e no amanho das suas terras.
Em 1945, a vitória dos Aliados e a derrota do nazifascismo são recebidas em Portugal com um forte regozijo e a ilusória esperança de que, também cá, a ditadura possa cair. Aproveitando a conjuntura favorável, e alguma desorientação momentânea do regime, as forças oposicionistas unem-se e constituem o Movimento de Unidade Democrática (MUD) que, desde logo, exige mudanças políticas, nomeadamente eleições livres, devidamente fiscalizadas.
Em Pechão, Francisco Guerreiro participa, com outros oposicionistas, na recolha de assinaturas de adesão ao MUD e, integra a sua comissão local, como secretário. Como represália, é afastado do lugar para que havia sido nomeado na mesa eleitoral da freguesia. No início de 1947, é exonerado do cargo de escrivão da Junta que ocupava havia sete anos.
Ainda em 1947, no dia 23 de Março, no âmbito da Semana da Juventude, organizada pelo MUD Juvenil, jovens de todo o Algarve, entre os quais Francisco Guerreiro, concentram-se na mata de Bela Mandil, numa jornada pacífica de convívio e protesto, à semelhança de outras, realizadas noutros pontos do país. A concentração é interrompida por forças da GNR e da Polícia. Os jovens que, em grande parte, se dirigiam, pela EN 125, para Olhão, para a partir daí poderem retornar aos seus destinos de origem, são atacados pelas forças policiais, já dentro da vila, à entrada da ponte sobre o caminho de ferro, desta vez com disparos de tiros. Nos dias seguintes, são efectuadas várias prisões.
Em 1949, durante a campanha eleitoral do General Norton de Matos como candidato da Oposição Democrática à Presidência da República, Francisco Guerreiro integra, como secretário, a comissão de freguesia de apoio à candidatura e participa activamente em diversos comícios e sessões de esclarecimento, nomeadamente em Pechão, onde é orador, numa sessão largamente participada pela população.
Em 1958, empenha-se, com outros companheiros, na campanha do General Humberto Delgado e é obrigado a viver, depois da farsa eleitoral, durante quase um mês, na semi-clandestinidade. Acaba por ser detido pela PIDE, por algumas horas, e fichado.
Do seu percurso pessoal, nesta época, constam ainda duas passagens curtas pela emigração, na Argentina, onde vive o pai: a primeira entre 1950 e 1952, a segunda entre 1962 e 1964.
Chega o 25 de Abril. No calor da revolução, envolve-se de corpo e alma. Retoma o lugar de escrivão da Junta de Freguesia, de que tinha sido afastado anos antes, faz parte da Comissão de Moradores e integra a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Olhão. Em 1975, na eleição da Assembleia Constituinte, é candidato pelo MDP/ CDE pelo círculo do Algarve. Nas eleições autárquicas de 1979, é candidato pela APU e eleito presidente da Junta de Freguesia, cargo para que é, sucessivamente, reeleito nos três mandatos seguintes.
Homem simples do povo, de raízes e modo de estar na vida genuinamente rurais, coerente e determinado nas suas convicções, foi, enquanto autarca, como já tinha sido na luta pela liberdade, um exemplo de cidadania. Até 1976, na Comissão Administrativa da Câmara Municipal e, mais tarde, na Junta de Freguesia e na Assembleia Municipal, bate-se com unhas e dentes por aquilo que considera ser o melhor para a sua terra e contribui decisivamente para a satisfação de algumas das aspirações mais fortes da população, como o estabelecimento da rede de saneamento básico, a electrificação das zonas rurais ou a criação de uma extensão do Centro de Saúde. Como candidato, é avesso ao eleitoralismo e às promessas fáceis. Na actividade quotidiana da Junta, não hesita, com a espontaneidade que o caracteriza, em dar uma resposta atravessada a alguma pergunta mais impertinente, ainda que isso lhe pudesse custar a perda de alguns votos.
Os anos passam. Inexoravelmente. Vão longe os anos da mocidade. Os sonhos, ilusões e utopias ciosamente perseguidos na juventude desfazem-se, por vezes, com fragor. Nos dias rigorosos de Inverno, os livros, fiéis companheiros de sempre, e a escrita ocupam-lhe mais tempo, sobretudo depois que, aos 66 anos, Se reformou da profissão de ferreiro que exercia desde os tempos da juventude.
No mar encapelado que o rodeia, a poesia é o porto de abrigo onde, no meio da tempestade, continua a encontrar a acalmia. Poeta popular desde tenra idade, conhecido e apreciado há muito pelos seus amigos e conterrâneos, vai reunindo um vasto e rico espólio literário, à espera, como António Aleixo, do seu Joaquim Magalhães, ao mesmo tempo que obtém alguns prémios e menções honrosas em jogos florais.
Não foi, no entanto, de poesia o primeiro livro que publicou. Interessado, desde bastante novo, pela História, pela Arqueologia e pela Numismática, e ciente da lacuna que representa a inexistência de um estudo de conjunto sobre a sua freguesia, publica, em 1989, a Pequena Monografia de Pechão, um trabalho sério e rigoroso em que, além de um conhecimento profundo da sua terra, evidencia apreciáveis qualidades de investigador.
E, em 1992, reunidas as condições e os apoios indispensáveis, vê enfim publicado o livro a que modestamente chama As Minhas Quadras Singelas e outros poemas, prefaciado por Joaquim Magalhães e do qual este conceituado professor disse: “Os versos de Francisco Guerreiro são uma espécie de espelho, diante do qual o autor se mira, se interroga e se confessa. Sempre igual a si mesmo, na mesma aspiração de uma sociedade menos injusta ( .. ) Suas quadras são singelas. É verdade. Mas quadras que o não sejam quem é que as entende? Que mensagem comunicam?”
O seu combate cívico e o seu labor intelectual foram, entretanto, em várias ocasiões, objecto de reconhecimento público.
Em 1991, a Câmara Municipal de Olhão concede-lhe a Medalha de Bons Serviços, Grau Ouro. A 23 de Abril de 1999, no âmbito das comemorações dos 25 anos do 25 de Abril, os órgãos autárquicos da freguesia - Assembleia e Junta - homenageiam-no, numa cerimónia pública presidida pelo Ministro da Ciência e Tecnologia, Prof. José Mariano Gago, ele próprio um amigo e admirador confesso de Francisco Guerreiro. À homenagem, concretização do desejo antigo de muitos amigos e concidadãos, associam-se autoridades e representantes de diferentes quadrantes políticos do concelho e do Algarve. Dias depois, é atribuído o seu nome a uma das principais ruas da sua Aldeia. A 16 de Junho, é-lhe atribuída, pela Câmara Municipal, a Medalha de Mérito, Grau Ouro.
Não deixou, entretanto, de escrever. O seu derradeiro livro-colectânea da obra poética produzida nos últimos anos que a sua morte impediu que visse publicado, veio à luz do dia com o título Quadras Sentidas, alguns meses apenas depois de nos ter deixado.
Nele, o autor, sagaz, algumas vezes com ironia, reflecte sobre os mistérios da vida, as injustiças do mundo, os desatinos dos homens. Inconformado, por vezes atormentado, fala dos sonhos de liberdade, justiça e paz por que lutou, das desilusões que o apoquentam, do tempo que passa, célere, sem piedade.

A partir do Prefácio do livro Quadras Sentidas,
pelo Prof. Idalécio Soares,
adaptado para o site por Rui Guerreiro