“Ah!, Vladimiro, nunca pensei que a velhice custasse tanto!”
Era desta forma que o meu pai manifestava o seu desencanto e angústia perante o avanço da idade e das maleitas a ela associadas.
Todos os dias ia visitar os meus velhotes, uma, duas ou três vezes, mas pelo menos ao fim do dia, era certo e sabido que nos encontrávamos para um pouco de conversa, mais de política e cultura geral com o meu pai, sobretudo da vida e labuta diária com a minha mãe. Um pouco de conversa e um jornal. Eu comprava-o de manhã, às vezes lia apenas os cabeçalhos e ao fim do dia passava-o para ele, numa cumplicidade rotineira ao longo de muitos anos. Quando o meu pai ia até Olhão, normalmente um dia por semana, para fazer algumas compras e conversar um pouco com os seus amigos da cidade, comprava ele o jornal (ou ofereciam-lhe, como era o caso do “Brisas do Sul”) e eu lia-o na noite.
Ao longo destes anos, pelas nossas mãos passaram muitos títulos, com maior assiduidade para o “Diário”, “Diário de Notícias”, “Público”, “Expresso” e “Avante”, um dia um, outro dia outro, mas sempre notícias frescas para ler e comentar.
O meu pai sabia ler e escrever bem, mas muito melhor sabia interpretar o que vinha nas entrelinhas, uma aprendizagem feita ao longo de muitos anos da ditadura fascista, nas páginas do “República”, “Diário de Lisboa” e no clandestino “Avante”. Às vezes ficava aborrecido e revoltado com as notícias, comentários e um certo tipo de jornalismo subserviente, parcial e balofo dos grandes meios de comunicação social.
“Ah!, Vladimiro, não basta ser velho se não ainda ter de aturar tanta mediocridade. Dá-me vontade pregar com isto tudo no lixo!”
Mas no outro dia voltava de novo aos jornais e aos recortes dos artigos mais interessantes, às vezes com anotações feitas nas margens do papel. O apelo daquelas folhas era mais forte do que a sua desilusão e amargura…
Tudo isto durou até pouco tempo antes da sua morte, apenas nos últimos quatro ou cinco dias dispensou a leitura dos jornais. O meu pai manteve-se perfeitamente consciente da sua situação até à partida para a última viagem, inclusive foi pelo seu próprio pé, amparado no meu ombro, para a ambulância que o transportou até ao hospital de Faro, onde terminou a sua vida perto das oito horas do dia 17 de Março de 2004. Falei com ele pela última vez às vinte e duas horas do dia anterior, estava calmo e consciente. Lembro-me que tinha os pés muito frios, a minha cunhada Isabel, que me acompanhou e possibilitou a visita, foi buscar uma pequena manta e embrulhou-a nos membros inferiores. Despediu-se de mim com um aperto de mão. Deve ter sido o seu último acto afectuoso!
Para além dos livros, moedas, documentos, apontamentos e poemas inéditos, esses recortes dos jornais, fazem parte do espólio que agora irá ficar disponível na internet, mais propriamente na Biblioteca Guerreiro, um trabalho dedicado, muito bem elaborado e sentido do seu neto mais novo, do meu filho Rui Guerreiro.
“Vladimiro, isto está quase no fim!”
É verdade, parece que ainda ouço estas palavras. O meu pai, o grande Francisco Guerreiro, manteve o discernimento e a consciência até ao fim dos seus dias. Mas também a determinação, o porte, as convicções e os ideais. Como ele estaria orgulhoso com esta iniciativa do seu neto!
Vladimiro Guerreiro