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17 de Junho, 2009
Colaborações, Estórias

Livros e leituras

Falar da Biblioteca Guerreiro é falar essencialmente do meu pai. São centenas de livros, documentos, apontamentos, recortes, cartas, moedas, selos, etc, etc, um espólio enorme coleccionado e preservado ao longo de várias décadas.

O meu pai foi sempre dedicado aos livros e à leitura, procurou e adquiriu, por sua conta e risco, conhecimentos nas mais diversas áreas, compatíveis com a cultura geral de muitos portadores de canudos universitários, aquilo a que vulgarmente se chama de autodidacta, um verdadeiro autodidacta!

Desde que me recordo, sempre conheci a minha casa com livros, jornais e revistas. Ali podia faltar o dinheiro (e faltou muitas vezes), mas nunca faltou informação e formação. Comprados, oferecidos, emprestados, os diversos canais de cultura estiveram sempre presentes naquela modesta casa de gente pobre e trabalhadora.

A minha mãe, ao contrário do seu companheiro de sempre, era pouco dedicada à leitura. Não por falta de saber ler, tão pouco escrever, mas porque a sua vida, arrastada e dura, jamais lhe permitia ter tempo e discernimento para essa actividade. Por força das circunstâncias e da actividade cívica e política do meu pai, coube-lhe a ela, muitas vezes, assegurar o sustento da família. Quando o meu pai esteve preso, quando andou fugido, quando emigrou para a Argentina, foi a minha mãe que tomou conta da casa, dos filhos, das courelas, dos animais de criação, enfim, foi mãe e foi pai ao mesmo tempo.

Daí que a leitura não fosse para ela uma prioridade, mas sim uma actividade para quem não tem mais nada para fazer. Chegava a criticar o meu pai, dizendo-lhe que perdia o tempo todo com a leitura, ainda por cima “quase sempre com mentiras, os jornais trazem o que lhe querem lá pôr…”.

Às vezes, já nos últimos anos de vida em conjunto, a minha mãe pegava no jornal e dedicava-lhe algum tempo, normalmente à imprensa regional e preferencialmente às notícias relacionadas com pessoas conhecidas. Por exemplo, gostava muito de ler a página da necrologia. Nunca percebi muito bem, mas essas páginas nunca falhavam!

Mas a minha mãe foi uma grande mulher. Uma trabalhadora incansável, uma companheira inseparável e uma mãe dedicada. Costuma dizer-se que “atrás dum grande homem está sempre uma grande mulher”, pois no seu caso, nada mais verdadeiro e acertado.

Este pequeno intróito serve para contextualizar um episódio vivido há cerca de 50 anos, uns meses depois da campanha eleitoral e das eleições a que concorreu o general Humberto Delgado. Eu tinha cinco anos, mas lembro-me muito bem, é talvez uma das memórias mais antigas dos meus primeiros anos de vida, um caso que só muito mais tarde compreendi e lhe dei o devido significado e valor.

Pelos apontamentos do meu pai, a campanha eleitoral começou no dia 8 de Maio de 1958. Primeiro foi apoiante do Dr. Arlindo Vicente, tendo participado num comício em Faro, na noite de terça-feira, de 27 desse mês. Já depois da desistência do candidato a favor do General Humberto Delgado, o meu pai acompanhou este último numa acção em Olhão, na tarde do dia 4 de Junho e participou na distribuição de listas no sábado, dia 7.

As eleições tiveram lugar no domingo, dia 8, com os seguintes resultados “oficiais” em Pechão:

- Inscritos: 185
- Votantes: 145
- A. Tomás: 108
- H. Delgado: 37

Uns dias após as eleições, a PIDE começou uma vasta operação de repressão aos envolvidos na campanha e no apoio ao General “Sem Medo”. De norte a sul do país, milhares de activistas da oposição foram incomodados, perseguidos, notificados e presos pelo regime. A Freguesia de Pechão, um dos baluartes da resistência não fugiu à regra e, no dia 1 de Julho, no rescaldo dum assalto à aldeia, prenderam o “Chico Carpinteiro”, apelido do grande antifascista Francisco da Silva Gramacho.

De acordo com os seus apontamentos, o meu pai só foi incomodado pela PIDE em 27 de Julho, tendo sido presente à delegação de Olhão.

Neste intervalo de tempo, o meu pai andou fugido, assim a modos que na clandestinidade, sendo por esse dias que se deu o tal caso que tem muito a ver com a Biblioteca Guerreiro.

Nessa época, a casa dos meus pais era constituída por uma cozinha, um corredor, uma sala, dois quartos e um sótão, tudo pequenas e simples divisões. Casa de banho não havia, só tivemos esse privilégio alguns anos depois, como, aliás, muitas outras casas que conheci. Junto à janela da sala, o meu pai tinha uma secretária e por detrás da porta que dava para o corredor, estava uma pequena estante com alguns livros e revistas, que ficava encoberta quando se abria a porta.

Ao contrário do que acontece hoje em dia, as portas estavam sempre abertas, pelo que, quando a minha mãe se apercebeu já dois sujeitos, bem vestidos, de casaco e chapéu, estavam no corredor. Em casa estava apenas a minha mãe e eu, agarrado à sua saia, no alto dos meus cinco anos, enquanto a minha irmã, na altura com 18 anos, devia estar na costura.

Não sei se tive medo, mas a minha mãe acho que não, ou então disfarçou muito bem. Colocou-se na tal porta que dava acesso à sala e decidida perguntou-lhes o que pretendiam, seguindo-se um diálogo muito próximo deste:

- “Somos amigos do seu marido e viemos buscar uns livros que ele nos emprestou”

- “O meu marido não está e eu de livros não percebo nada”

- ”Não faz mal, nós sabemos quais são, só queremos que nos diga onde estão”

- ”Não sei. Venham outro dia quando ele estiver. Aqui, sem o meu marido, não entram!”

E enfrentou-os, firme e decidida. Não sei se por ser de dia, se por a minha mãe falar muito alto e ouvir-se na vizinhança do monte, o certo é que os sujeitos foram embora e, nesse dia, os livros ficaram a salvo. A pouco mais de um metro dos abutres!

Penso que alguns deles são hoje parte integrante da Biblioteca Guerreiro, um espólio valioso construído por um grande homem e defendido por uma grande mulher. Muito obrigado aos dois!

Vladimiro Guerreiro


4 de Junho, 2009
Colaborações

Recortes

“Ah!, Vladimiro, nunca pensei que a velhice custasse tanto!”

Era desta forma que o meu pai manifestava o seu desencanto e angústia perante o avanço da idade e das maleitas a ela associadas.

Todos os dias ia visitar os meus velhotes, uma, duas ou três vezes, mas pelo menos ao fim do dia, era certo e sabido que nos encontrávamos para um pouco de conversa, mais de política e cultura geral com o meu pai, sobretudo da vida e labuta diária com a minha mãe. Um pouco de conversa e um jornal. Eu comprava-o de manhã, às vezes lia apenas os cabeçalhos e ao fim do dia passava-o para ele, numa cumplicidade rotineira ao longo de muitos anos. Quando o meu pai ia até Olhão, normalmente um dia por semana, para fazer algumas compras e conversar um pouco com os seus amigos da cidade, comprava ele o jornal (ou ofereciam-lhe, como era o caso do “Brisas do Sul”) e eu lia-o na noite.

Ao longo destes anos, pelas nossas mãos passaram muitos títulos, com maior assiduidade para o “Diário”, “Diário de Notícias”, “Público”, “Expresso” e “Avante”, um dia um, outro dia outro, mas sempre notícias frescas para ler e comentar.

O meu pai sabia ler e escrever bem, mas muito melhor sabia interpretar o que vinha nas entrelinhas, uma aprendizagem feita ao longo de muitos anos da ditadura fascista, nas páginas do “República”, “Diário de Lisboa” e no clandestino “Avante”. Às vezes ficava aborrecido e revoltado com as notícias, comentários e um certo tipo de jornalismo subserviente, parcial e balofo dos grandes meios de comunicação social.

“Ah!, Vladimiro, não basta ser velho se não ainda ter de aturar tanta mediocridade. Dá-me vontade pregar com isto tudo no lixo!”

Mas no outro dia voltava de novo aos jornais e aos recortes dos artigos mais interessantes, às vezes com anotações feitas nas margens do papel. O apelo daquelas folhas era mais forte do que a sua desilusão e amargura…

Tudo isto durou até pouco tempo antes da sua morte, apenas nos últimos quatro ou cinco dias dispensou a leitura dos jornais. O meu pai manteve-se perfeitamente consciente da sua situação até à partida para a última viagem, inclusive foi pelo seu próprio pé, amparado no meu ombro, para a ambulância que o transportou até ao hospital de Faro, onde terminou a sua vida perto das oito horas do dia 17 de Março de 2004. Falei com ele pela última vez às vinte e duas horas do dia anterior, estava calmo e consciente. Lembro-me que tinha os pés muito frios, a minha cunhada Isabel, que me acompanhou e possibilitou a visita, foi buscar uma pequena manta e embrulhou-a nos membros inferiores. Despediu-se de mim com um aperto de mão. Deve ter sido o seu último acto afectuoso!

Para além dos livros, moedas, documentos, apontamentos e poemas inéditos, esses recortes dos jornais, fazem parte do espólio que agora irá ficar disponível na internet, mais propriamente na Biblioteca Guerreiro, um trabalho dedicado, muito bem elaborado e sentido do seu neto mais novo, do meu filho Rui Guerreiro.

“Vladimiro, isto está quase no fim!”

É verdade, parece que ainda ouço estas palavras. O meu pai, o grande Francisco Guerreiro, manteve o discernimento e a consciência até ao fim dos seus dias. Mas também a determinação, o porte, as convicções e os ideais. Como ele estaria orgulhoso com esta iniciativa do seu neto!

Vladimiro Guerreiro