Francisco Guerreiro estaria hoje a comemorar exactamente 92 anos e quatro meses de vida. Também neste dia, há 22 anos atrás, escrevia no seu diário, com letra bem marcada, confiante e alegre, “compro a máquina de escrever!”.
Estas são apenas datas simbólicas, algo que serviu de argumento para escolher o dia em que este espaço abre as portas ao público. Os motivos que conduziram a esta iniciativa são bem mais concretos, quer em termos de divulgação cultural da obra e do conhecimento acumulado por Francisco Guerreiro, quer a nível pessoal e afectivo para com o homem e o seu legado.
Comecemos então pelos primeiros. À falta, por ora, de um espaço onde o espólio de Francisco Guerreiro possa encontrar um contacto directo entre aquele e o público em geral, a criação de um espaço virtual que permita desde logo a interacção, e a longo prazo a divulgação da maior parte possível da imensa herança cultural do autor da Pequena Monografia de Pechão, parece-me ser o passo adequado a dar neste momento, acreditando que não seja, nem o maior, nem tão pouco o último, em direcção a um digno e pedagógico destino a dar ao trabalho deste ilustre habitante da freguesia de Pechão.
Ao longo de 87 anos, Francisco Guerreiro colheu do mundo muito do que lhe foi permitido agarrar, e como ele bem sabia, uma boa colheita depende, não somente, mas em boa parte, da dedicação ao trabalho da lavoura, do cultivo e do zelo. Assim da terra como das humanidades, foi obtendo os recursos necessários à vida de um pensador, assim se instruiu e construiu em seu redor um espaço de saber, de aguçada curiosidade e dúvida irredutível perante as respostas que o mundo lhe apresentou. Para dar alguma objectividade a este facto, para que seja possível ao menos ter uma ideia do espólio, aqui ficam alguns dados gerais: ao longo do seu percurso de vida recolheu perto de mil títulos, entre obras de literatura, ensaios políticos, estudos de ciências sociais e naturais, periódicos nacionais e estrangeiros, deixou um número ainda não totalmente determinado de material manuscrito, muito do qual inédito, parte do mesmo que ficou editado nos três livros que escreveu, uma colecção de diários pessoais e de viagem mantidos ininterruptamente entre 1949 e 2004, foi um apaixonado pela numismática, um atento curioso das lides da arqueologia, e viu sair do prelo, dois dos seus três livros: a já mencionada Pequena monografia de Pechão (1988), a primeira colectânea de poemas, intitulada As minhas quadras singelas, e outros poemas (1992), e a título póstumo Quadras Sentidas (2004), a segunda compilação de poesia.
Apresentados os argumentos que dizem respeito à pessoa de Francisco Guerreiro, e que, só por si dão sentido a esta iniciativa, resta-me apresentar o lado pessoal da mesma, a ligação afectuosa que tenho para com o projecto que agora, após avanços e recuos, dá finalmente os primeiros passos.
Ainda miúdo — lembro as vezes que entrava no pequeno escritório do meu avô e respirava aquele cheiro abafado do papel —, imaginava uma bela estante, alta e aprumada, onde aquele conhecimento todo pudesse ser recebido com a dignidade que, na vida como eu a vejo, devem ser acolhidos os objectos que mais peso ocupam na longevidade e razão, dos nem sempre coerentes Homem e Mundo: os livros.
Por essa altura comecei também a comprar os meus próprios livros, a conhecer autores e obras famosas, e posteriormente a escolher os que mais mexiam comigo, os que faziam pensar, os que despertavam paixão ou ódio, os que simplesmente divertiam e aqueles que pouco ou nada acrescentavam ao meu crescimento. Depois da leitura como descoberta de um mundo novo, saltei para o afecto, para o interesse pela ordem e pela preservação dos livros e do seu poder de enriquecimento cultural, e de como aquelas podem ser uma mais valia social. Haverá para lá de 15 anos quando, pela primeira vez decidi que seria uma actividade que, não só me daria imenso prazer, como poderia no futuro ser de grande utilidade, e com isto entrei pelos corredores longos da catalogação e da prática arquivista. A princípio com interesse moderado, bem como o quanto sabia acerca do assunto. Com o tempo, pesquisei, li tanto quanto pude acerca da matéria e, durante a universidade frequentei inclusivamente algumas cadeiras sobre as várias disciplinas que compõem a biblioteconomia, o que me permitiu, ainda que não como um profissional, atingir um grau de conhecimento suficiente para pôr em marcha este sonho antigo de criar uma biblioteca com os livros do meu avô, os que o meu pai acrescentou, e os que fui abraçando ao longo dos anos.
É, no fundo, este o grande motor da Biblioteca Guerreiro, ao que acresce o facto de que sinto como imperativo divulgar a parte menos visível da obra de Francisco Guerreiro. Mas é bem mais que um mero catálogo ou exposição dessa mesma obra, é sobretudo um espaço de conversa, de troca de experiências que, assim espero, venham a popular esta casa virtual, vindas de pessoas de todos os credos e quadrantes, que por esta ou aquela razão, tocaram ou foram tocados por Francisco Guerreiro. É uma iniciativa cheia de vontade, em fase de crescimento, pelo que, de certo se irão deparar a cada semana com algo novo, seja no Catálogo bibliográfico e documental em construção, o qual poderá consultar a qualquer momento, seja na área de Exposição ou no Espólio, ou nos textos de opinião no Blog.
A Biblioteca Guerreiro está, portanto a funcionar, e para que continue por bom caminho, entre, dê uma vista de olhos, comente ou contribua mesmo, enviando o seu texto para a morada de email apropriada que encontrará na secção de Contactos. Será um prazer ter a casa de Francisco Guerreiro cheia de letras e de amigos.
Bem-vindos!
Rui Guerreiro