Falar da Biblioteca Guerreiro é falar essencialmente do meu pai. São centenas de livros, documentos, apontamentos, recortes, cartas, moedas, selos, etc, etc, um espólio enorme coleccionado e preservado ao longo de várias décadas.
O meu pai foi sempre dedicado aos livros e à leitura, procurou e adquiriu, por sua conta e risco, conhecimentos nas mais diversas áreas, compatíveis com a cultura geral de muitos portadores de canudos universitários, aquilo a que vulgarmente se chama de autodidacta, um verdadeiro autodidacta!
Desde que me recordo, sempre conheci a minha casa com livros, jornais e revistas. Ali podia faltar o dinheiro (e faltou muitas vezes), mas nunca faltou informação e formação. Comprados, oferecidos, emprestados, os diversos canais de cultura estiveram sempre presentes naquela modesta casa de gente pobre e trabalhadora.
A minha mãe, ao contrário do seu companheiro de sempre, era pouco dedicada à leitura. Não por falta de saber ler, tão pouco escrever, mas porque a sua vida, arrastada e dura, jamais lhe permitia ter tempo e discernimento para essa actividade. Por força das circunstâncias e da actividade cívica e política do meu pai, coube-lhe a ela, muitas vezes, assegurar o sustento da família. Quando o meu pai esteve preso, quando andou fugido, quando emigrou para a Argentina, foi a minha mãe que tomou conta da casa, dos filhos, das courelas, dos animais de criação, enfim, foi mãe e foi pai ao mesmo tempo.
Daí que a leitura não fosse para ela uma prioridade, mas sim uma actividade para quem não tem mais nada para fazer. Chegava a criticar o meu pai, dizendo-lhe que perdia o tempo todo com a leitura, ainda por cima “quase sempre com mentiras, os jornais trazem o que lhe querem lá pôr…”.
Às vezes, já nos últimos anos de vida em conjunto, a minha mãe pegava no jornal e dedicava-lhe algum tempo, normalmente à imprensa regional e preferencialmente às notícias relacionadas com pessoas conhecidas. Por exemplo, gostava muito de ler a página da necrologia. Nunca percebi muito bem, mas essas páginas nunca falhavam!
Mas a minha mãe foi uma grande mulher. Uma trabalhadora incansável, uma companheira inseparável e uma mãe dedicada. Costuma dizer-se que “atrás dum grande homem está sempre uma grande mulher”, pois no seu caso, nada mais verdadeiro e acertado.
Este pequeno intróito serve para contextualizar um episódio vivido há cerca de 50 anos, uns meses depois da campanha eleitoral e das eleições a que concorreu o general Humberto Delgado. Eu tinha cinco anos, mas lembro-me muito bem, é talvez uma das memórias mais antigas dos meus primeiros anos de vida, um caso que só muito mais tarde compreendi e lhe dei o devido significado e valor.
Pelos apontamentos do meu pai, a campanha eleitoral começou no dia 8 de Maio de 1958. Primeiro foi apoiante do Dr. Arlindo Vicente, tendo participado num comício em Faro, na noite de terça-feira, de 27 desse mês. Já depois da desistência do candidato a favor do General Humberto Delgado, o meu pai acompanhou este último numa acção em Olhão, na tarde do dia 4 de Junho e participou na distribuição de listas no sábado, dia 7.
As eleições tiveram lugar no domingo, dia 8, com os seguintes resultados “oficiais” em Pechão:
- Inscritos: 185
- Votantes: 145
- A. Tomás: 108
- H. Delgado: 37
Uns dias após as eleições, a PIDE começou uma vasta operação de repressão aos envolvidos na campanha e no apoio ao General “Sem Medo”. De norte a sul do país, milhares de activistas da oposição foram incomodados, perseguidos, notificados e presos pelo regime. A Freguesia de Pechão, um dos baluartes da resistência não fugiu à regra e, no dia 1 de Julho, no rescaldo dum assalto à aldeia, prenderam o “Chico Carpinteiro”, apelido do grande antifascista Francisco da Silva Gramacho.
De acordo com os seus apontamentos, o meu pai só foi incomodado pela PIDE em 27 de Julho, tendo sido presente à delegação de Olhão.
Neste intervalo de tempo, o meu pai andou fugido, assim a modos que na clandestinidade, sendo por esse dias que se deu o tal caso que tem muito a ver com a Biblioteca Guerreiro.
Nessa época, a casa dos meus pais era constituída por uma cozinha, um corredor, uma sala, dois quartos e um sótão, tudo pequenas e simples divisões. Casa de banho não havia, só tivemos esse privilégio alguns anos depois, como, aliás, muitas outras casas que conheci. Junto à janela da sala, o meu pai tinha uma secretária e por detrás da porta que dava para o corredor, estava uma pequena estante com alguns livros e revistas, que ficava encoberta quando se abria a porta.
Ao contrário do que acontece hoje em dia, as portas estavam sempre abertas, pelo que, quando a minha mãe se apercebeu já dois sujeitos, bem vestidos, de casaco e chapéu, estavam no corredor. Em casa estava apenas a minha mãe e eu, agarrado à sua saia, no alto dos meus cinco anos, enquanto a minha irmã, na altura com 18 anos, devia estar na costura.
Não sei se tive medo, mas a minha mãe acho que não, ou então disfarçou muito bem. Colocou-se na tal porta que dava acesso à sala e decidida perguntou-lhes o que pretendiam, seguindo-se um diálogo muito próximo deste:
- “Somos amigos do seu marido e viemos buscar uns livros que ele nos emprestou”
- “O meu marido não está e eu de livros não percebo nada”
- ”Não faz mal, nós sabemos quais são, só queremos que nos diga onde estão”
- ”Não sei. Venham outro dia quando ele estiver. Aqui, sem o meu marido, não entram!”
E enfrentou-os, firme e decidida. Não sei se por ser de dia, se por a minha mãe falar muito alto e ouvir-se na vizinhança do monte, o certo é que os sujeitos foram embora e, nesse dia, os livros ficaram a salvo. A pouco mais de um metro dos abutres!
Penso que alguns deles são hoje parte integrante da Biblioteca Guerreiro, um espólio valioso construído por um grande homem e defendido por uma grande mulher. Muito obrigado aos dois!
Vladimiro Guerreiro